cultura

A histórica odisseia de Zé Toim: memória póstuma ao ancestral guerreiro africano

Arquivo Pessoal

O sol mostrava seus primeiros raios de uma manhã que mais tarde entraria para a história. Do alto celeste vinha uma luz brilhante. Os anjos sopravam o mais belo som célico e sobre as bênçãos de Nossa Senhora da Penha era festa no céu. Há 91 anos, em um 26 de outubro como o que você acabou de amanhecer, nascia uma criança de matriz africana, neto de Emiliana, que chegou a São Luís por meio dos mais sanguinolentos navios negreiros. Chegava ao mundo José Evaristo Carvalho, sobre a luz de Vicência Carvalho ou simplesmente Ciá. De parto natural em uma selva que tempos depois se chamaria Gapara e, verdadeiramente, seria seu berço literal entre a vida e a morte.

Por lá, o bravo garoto de personalidade forte e de um coração que seria capaz de abarcar seu continente originário passou sua primeira década. Entre cajueiros, manguezais e juçaras, no meio do mato, respirando o toque mais profundo da mãe natureza. Mas José precisava trocar de genitora. Ele destinava-se a encontrar com uma nova mãe: a Madre de Deus. Era hora de entrar para história de seu novo povo.

Como seu ancestrais, José chegou na sua nova comunidade vivendo do que a bonança de Deus fez existir. Irmão mais velho de cinco filhos, o garoto viu na pesca uma maneira de respirar contra a opressão social, trazendo como principal técnica, a garra que chegava ao calor de suas mãos por meio de seus antepassados.

Mas a história do José não podia ser só essa. Era hora dele se transformar no herói dos humildes: Zé Toim. A origem da alcunha? A proteção do oprimido. Naquele novo bairro, Toinho, seu irmão, se metia em muitas confusões na infância e, como protetor, o Zé sempre chegava para cortar as arrestas. Não deu outra, logo os amigos o passaram a chamar de “ Zé de Toinho”, que sofreria leves alterações ano após anos. Até chegar a simplesmente, o Zé Toim.

A liderança era seu dom. A humildade era sua arma. Logo chegou ao comando da colônia de pescadores. Mais tarde seria gerente de um casino no bairro e, por meio de uma relação estreita pelas cartas da mesa, passou a partir de então, a transfundir seu sangue para a cultura popular de seu novo povo.

Jovem, foi um dos fundadores do Cruzeiro, um dos primeiros blocos carnavalescos da Madre Deus. Teve sucesso tamanho que resolveu encarrar as fronteiras de um dos maiores medos de sua raça: o preconceito. Foi o primeiro componente negro a entrar no elitizado bloco Fuzileiros da Fuzarca.

Ao lado de nomes importantes como Irineu, Sabujá e Badela, por lá foi presidente durante gloriosos 25 anos. Entre tantas marcas e conquistas pela tradicional manifestação carnavalesca, a maior delas foi a popularização do bloco que hoje é aclamado nos braços do povo, seja ele branco, negro, índio ou o que quer que seja.

Mas Zé Toim buscava mais. Queria uma história com tons de azul e branco. Foi o nome escolhido pela comunidade para ir de encontro a políticos que tentavam liderar a principal manifestação cultural do bairro: a Turma Quinto. Eram favas contadas. Assumiu no fim do ano de 1977 e no seu primeiro carnaval, no ano seguinte, tirou o grito entalado da garganta da TQ com o revolucionário enredo I Juca-Pirama, que lançava um grupo de jovens ao carnaval maranhense, encabeçado por Zé Pereira Godão, compositor do samba pé quente.

Chegou a ser hepta campeão pela escola e seguiu no comando da Turma do Quinto por décadas, alternado a presidência com seu amigo e outro expoente cultural, Tabaco. Mas era hora também de brincar São João ao som de pandeiros e matracas. Era hora da fogueira…

Arquivo Pessoal

Em 1988, curiosamente, ano de nascimento do titular desse blog, Zé Toim assumiu pela primeira vez a presidência do Bumba-meu-boi da Madre Deus. Novas glórias, ressurgimento da centenária brincadeira e conquistas históricas sobre as bênçãos de São João. Detalhe: todas essas manifestações são destaque da cultura popular maranhense e possuem a muito suor, suas respectivas sedes, conquistadas graças a força conjunta e a garra do valente guerreiro africano.

A história da Madre Deus se confunde com a saga do afrodescendente. Pescador, operário da antiga Cânhamo (fábrica de tecidos), artesão, fabricante de sabão e até dono de casino no Mercado Central de São Luís. Zé Toim criou nove filhos com sua esposa Lucília Maria, mas ajudou muitas outras famílias a sustentarem os seus.

Nos deixou na última terça-feira (24) vítima de uma parada cardíaca ocasionada após complicações de um acidente vascular cerebral (AVC). Seria exatamente o dia que programamos para lançar este blog. Adiamos e dois dias depois, justamente no dia de seu aniversário, publicamos esta breve história em memória póstuma a este africano guerreiro.

Mas acima de toda odisseia, o menino José deixou um legado. Deixou “Josés”. Deixou Joselim, Josecilia, Josete, Josebel, Josenildo, Josélia, Joseleudes, Joserone e Joserene. Todos vivos, com filhos, netos e bisnetos que estão cheios de história para contar.

Vai com Deus, vovô! Vou lhe honrar em toda parte. Meu herói, meu amigo, serás sempre meu santo forte. Minha referência será eternamente você, africano guerreiro!

5 comentários em “A histórica odisseia de Zé Toim: memória póstuma ao ancestral guerreiro africano”

  1. Um texto lindo digno da história de vida do seu avô! Continue o legado dele, quer seja através da sua narrativa ou pelo seu envolvimento com as manifestações que ele ajudou a fundar/firmar.

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  2. São dessas coincidências da vida que a gente não sabe explicar. Mas, só de sentir, arrepia. Sr. Zé merece todas as homenagens, querido! E a tua foi digna dele! Deu pra sentir em cada palavra tua emoção e teu orgulho! Lindo texto!

    Curtido por 1 pessoa

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